segunda-feira, 15 de maio de 2017

HÁ PUSILANIMIDADE A MAIS


Nestes tempos conturbados em que vivemos, onde o velho conceito de Estado-Nação dá fortes sinais de estar a passar à História, urge pensar sobre as questões de segurança de pessoas e bens no interior das nossas fronteiras.

Sabemos como começa a indisciplina cívica. A dúvida é saber como acaba. Tem elevados custos, quer de ordem humana, – mortos, fome, desemprego, perseguições – quer patrimoniais. Bom, muito bom mesmo, é esvaziar a tempo e horas as tensões que, em momento oportuno, ficam incontroláveis.

Em 1915, cinco anos após a queda da Monarquia, os conflitos partidários geraram uma disputa entre o Poder Legislativo e o Executivo que, para além da péssima imagem que as elites deram de si próprias, culminou na eliminação de Manuel Arriaga, da vida pública. A 21/01/1920, a turbamulta tendo à frente dois conhecidos agitadores, “Ó, Ai, Ó, Linda” e o “Pintor” impediu que o Governo de Fernandes Costa fosse tomar posse a Belém. Os agitadores faziam parte de associações de marginais que, explorando a pobreza, manipulavam o povo. A 19/10/1921 ocorreu a noite sangrenta em que a sedição ditou a morte de vários Homens Públicos. Nas eleições realizadas em Nov. de 1925, dos dois milhões de recenseados votaram menos de trezentos mil. Teixeira Gomes – PR em exercício – pedia a dignificação do Parlamento, mas infelizmente, para ele e para o País, saiu-nos em sorte o enorme escândalo Alves dos Reis envolvendo o Banco de Portugal. A perturbação social agudiza-se quando, a 01/01/1926 rebenta uma bomba no Paço Patriarcal, acirrando a disputa com a Igreja. A 26/05/1926, antes de partir para Braga, Gomes da Costa, disse ao jornalista Manuel Múrias: “Revolto-me! Você sabe o que significa isto de um militar como eu dizer que se revolta? Significa que eu […] chorei […] lágrimas de raiva e desespero pelos desesperos da Pátria amordaçada pelas quadrilhas partidárias, ao sentir o ulular das clientelas vorazes que se esfaimam a roer os ossos de Portugal, Malditos!” Estava aí revolução que, depois de exilar Gomes da Costa para os Açores, implantou o Estado Novo.

Nenhum Estado sobreviveria à indisciplina reinante em 1926. Ela justificava o uso da Força. O medo das polícias e de todo o aparelho repressivo do Estado instalou-se com Salazar e deveria ter terminado em 1974. Prometeram-nos um Estado que, fundamentado em leis, garantiria segurança de pessoas e bens e, incluso, nos protegeria das arbitrariedades de quem manda.

Desde logo as arbitrariedades não foram erradicadas. A Paróquia da Ribeira Seca, freguesia de Machico, ilha da Madeira, foi ocupada em 1985 por forças policiais durante 18 dias e 18 noites. Estava em causa um processo onde se quis “ver” crime, num litígio do âmbito do Tribunal Eclesiástico. O Estado deixou-se aviltar. O medo continuava a impor-se. Desde 1974 a comunicação social serviu a propaganda, e muito pouco a cidadania. Os efeitos de tudo isto já se sentem, mas é preciso estar atento para vê-los.  

A promoção de espectáculos de futebol, exacerba paixões. A TV dá-nos imagens violentas, onde é frequente vermos polícias “atacando” indefesos cidadãos. Os nossos eleitos, caso a pusilanimidade não os tolhesse, demarcar-se-iam das paixões clubísticas e não permitiriam que, normalmente, saiam enxovalhados aqueles que têm por missão garantir a segurança de pessoas e bens. Porém, a comunicação social e os eleitos querem-nos a discutir se a PSP ou a GNR bateram, ou não, com muita força. Assim não se aborda a razão profunda do negócio do futebol que, como se sabe, está assente na especulação financeira.

Em 1915, um diferendo entre o Poder Legislativo e o Executivo fez de Pimenta de Castro um fora de lei. Em 1925, os cidadãos desinteressaram-se da coisa pública e Teixeira Gomes tinha a noção do desprestígio do Estado. No ano da graça de 2017 temos todos estes ingredientes instalados na nossa sociedade e, diz-nos a experiência, as mesmas causas levam aos mesmos efeitos.

A pusilanimidade dos nossos eleitos atinge os alicerces do Estado de Direito. Estão muito a tempo de darem um murro na mesa, assumindo, na plenitude, as funções para que foram mandatados pelos nossos votos. O Dr. Salazar não voltará, mas tendo em conta a demissão dos eleitos na defesa do real Interesse Colectivo, corremos o risco de, em breve, termos instalada uma ditadura em que o Dr. Salazar ganhará o estatuto de menino do coro. Basta pensarmos que ao vencedor do Festival da Canção – Salvador Sobral – não foi permitido usar uma camisola chamando à atenção para o Problema Humano dos Refugiados. O HOMEM e o seu sofrimento não puderam ser lembrados. Mas se na camisola se referisse a marca de um negócio planetário, o cantor seria generosamente recompensado. Este Mundo não é para Seres Humanos.    

quarta-feira, 10 de maio de 2017

OS MIASMAS DOS ANOS TRINTA


Dia 7 de Maio de 2017 é data memorável para a França, para a Europa e para o Mundo. Emmanuel Macron venceu as eleições, derrotando Marine Le Pen. Todo o País exultou de alegria e com ele toda a Europa do bom senso, pela derrota da candidata que, dividindo os Seres Humanos, não hesitaria em atirá-los uns contra os outros.

Passada a euforia, nada melhor para reflectirmos sobre a gravidade do momento que o feriado do dia 8. A França comemora o fim da ocupação alemã na 2ª Guerra Mundial. Não escrevi vitória sobre a Alemanha porque acho que em 1945/46 houve apenas dois vencedores URSS e EUA. Os Europeus Ocidentais apenas tiveram direito ao fim de um pesadelo. E não foi coisa pouca, convenhamos!

Aqui chegado, e na reflexão a que me proponho, os miasmas dos anos 30 sentem-se, convém prestar-lhes atenção. A maioria dos órgãos de informação estão habituados, mercê da retórica política, a reduzir a vida colectiva às questões económico-financeiras. Elas são importantes, sem dúvida, mas as preocupações dos eleitos não se esgotam nisso. Uma moeda, seja o euro ou outra qualquer, querendo ser “saudável”, impõe a quem manda, um deficit nos 3% e a dívida pública não pode atingir percentagens loucas do PIB. O Euro foi mal concebido, não passando de um Marco mais fraco, dando assim supremacia à Alemanha em detrimento dos outros Países Europeus o que terá sido um erro. Mas podemos sempre emendar a mão em todos estes aspectos. Porém, não se espante com aquilo que vem a seguir, tudo isto são detalhes perante o perigo da guerra.

Ele existe e requer muita cautela, para não regredirmos aos anos 30, onde, do caos social, emergiram uns falsos salvadores nada interessados no bem-estar dos Seres Humanos. Eles estavam apenas motivados pela ambição de mandar e o sofrimento Humano não lhes pesava nas consciências. A realidade do pós-guerra alterou-se em 1989, com o desmantelamento da URSS. O liberalismo, na sua vertente económica, vingou em termos planetários. Porém, há mais vida para lá da economia. Nos Balcãs, após a morte do não alinhado Marechal Tito, a Jugoslávia que, desde 1945, administrara Sérvios, Croatas e Islâmicos em paz, desmorona-se. A 1ª saída foi a da Eslovénia em 1991. Foi uma separação dolorosa e complicada em que lutando contra quem não via com bons olhos a fragmentação Jugoslava, a Independência vingou com “mãozinha” Alemã. Todos nos recordamos daquilo que foi a chamada Guerra da Bósnia de 1992 a 95. Hoje a ex-Rep. da Jugoslávia está fragmentada em: Eslovénia, Croácia, Bosnia Herzegovina, Servia, Montenegro, Kosovo e Macedónia. Os conflitos no seio destas sociedades, normalmente, aparecem na comunicação social em notícias de pé página e o Sr. Eurodeputado Paulo Rangel referiu-se-lhe no Público no dia 2 de Maio p.p.. Parecia preocupado, há razões para isso.

A primeira tarefa da Nova Europa é olhar para aquilo que ocorre dentro das suas fronteiras onde a guerra existe e quase todos a escondem. A luta contra Marine Le Pen, um elemento de peso na pirâmide da demagogia e populismo em cujo vértice pontifica Donald Trump, tem de começar por aqui. É fundamental esvaziar os vários “Trumps” que explorando a Religião e crenças étnicas – a Jugoslávia é paradigmática – fomentam a divisão. As outras questões, sendo difíceis, resolvem-se por arrasto. Serão Frau Merkel e Herr Schaubel tão intransigentes que prefiram reforçar os “trumps” para não negociarem com alguém que, vindo da área financeira, ousou defender as posições gregas no relacionamento financeiro com o Eurogrupo? Macron tem de fazer sair a França do torpor económico em que está, aliás acompanhada por todo Sul, de Portugal à Grécia. Terá de ultrapassar o espinho da perda de influência europeia que, desde De Gaulle, custa aos Franceses engolirem.


Um País que se vê remetido para segundo plano pela Alemanha pode, em união de esforços com ela, almejar criar condições para que a globalização económica e as mudanças profundas provocadas nas sociedades mais desenvolvidas que daí advirão, ocorram numa ordem política coerente não criando excluídos. Assim os Trumps estarão definitivamente derrotados. 

sábado, 6 de maio de 2017

ESTADO A DIREITO


É a envolvente social dos adolescentes, na idade da ficção, que gera os sonhos. Sugiro-vos a leitura do texto abaixo para que, no final, cada um decida se estamos perante um sonho ou um pesadelo. A diferença é tão ténue! Porém, impregnada de valores morais.

Eu sou a Maria Boa Vida, tenho treze anos, vivo na Lombada dos Abençoados 3º Impasse à direita. Vivo com os meus pais e irmãos, a escassos metros da casa do meu avô. Ando na escola, e quero ser muito rica quando for grande.

Acho lindo o estado a direito em que vivemos. À Liberdade celebrada no fim de Abril seguem-se agora três semanas de festividades da flor. Comparar todo este bem-estar com os tempos tenebrosos que o meu avô descreve, em que não havia estrada nem luz, aqui em cima é a diferença entre o dia e a noite. Ele diz que vinha da escola a pé com os sapatos rotos, seguia pela vereda, entrava no trainel da levada e subia as “passadas” até chegar a casa. O pai, quando não venho no autocarro, traz-me no seu carro até à nossa garagem! Gosto de viver neste estado a direito.

O meu pai quando nasceu, quase que morria e, a minha avó passou muito mal por falta de médico. Graças ao estado a direito, assente na Liberdade e ao empenho de pessoas como os Srs. Drs. Alberto João e Miguel Sousa, entre outros, acabou a noite escura e, veio o sol da Autonomia. Retenho uma vaga ideia de ver o Sr. Dr. Miguel Sousa nos comícios, pondo a “Madeira em marcha”. Foi notável aquilo que se fez.

Vivo o ideal da Autonomia, daqui não me afasto. Não perco, às 5ªs. feiras, na RTP-M, o notável trabalho de divulgação daquilo que foi a luta para garantir o progresso da Madeira e Porto Santo. Foi lindo, ouvirmos o Dr. Miguel de Sousa explicar como perante a falta de dinheiro recorreu à Caixa Económica do Funchal para resolver o problema. Grande sabedoria teve aquele Senhor! Mas o Sr Dr. Alberto João não lhe ficou atrás, quando foi preciso dar vida à “Força de acreditar” do BANIF. Ai aquela conversa com os Srs. Horácio Roque e Joe Berardo no bar do Sheraton não me sai da cabeça! Era assim a união entre os grandes defensores da Autonomia, onde é de elementar justiça incluir o Sr. Dr. Paulo Fontes e a conversa a sós, na casa de banho, com o Sr. 1º Min. Tudo tão bem feito! Fossem doutros quaisquer estas afirmações, eu diria que mentiam, mas eles não. Eles não mentem!

Vou dedicar-me de alma e coração à Jota. Começarei pelos trabalhos mais humildes, sempre a pensar no melhor para o partido e para mim. Levantar-me-ei cedo, as vezes que forem necessárias, para acompanhar as pessoas nas concentrações determinadas pelo partido. O militante exemplar, para mim, é o Sr. Dr. Miguel Relvas. Aquele homem tem uma vida ao serviço dos outros. Desde os seus tempos de Jota que ele vem engrandecendo o partido, ao congregar à sua volta os militantes para garantirem apoio em votos aos chefes partidários. Num ápice chegou a Ministro, pois os dirigentes apoiados por ele não o esqueceram, quando foram eleitos para Funções de Estado. Esta lógica já eu percebi. “O meu avô é militante da primeira hora e o meu pai seguiu-lhe os passos”.

“Quero ser uma espécie de Isabel do Santos. O pai dela ajudou a Independência de Angola, o meu, a Autonomia da Madeira. Seduz-me ter um Banco! Estou ansiosa pelos próximos episódios da divulgação daquilo que foi a luta pela Autonomia, quero perceber muito bem as relações entre o Poder Político e o Poder Financeiro, já afloradas, mas ainda não totalmente explicadas. A minha ambição é grande, eu sei, mas vou lutar por ela. Confio totalmente na Autonomia e no estado a direito que a suporta.”

Restam-me duas dúvidas. Vou confessar-vos quais. Qual a diferença entre este estado a direito e o Estado de Direito de que, uns velhos, mais velhos que o meu avô, tanto falam? O que é o respeito pela Pessoa Humana? Porventura alguém é desrespeitado no estado a direito que a minha família ajudou a construir?  

sexta-feira, 28 de abril de 2017

TRIBUNAIS E PROPAGANDA


Em Venezuela, a partir de 1962, seguiu-se um período de dinheiro fácil até 1999, quando apareceu Hugo Chavez. Foram 37 anos abençoados pela gestão de Adecos e Copeianos com enriquecimento desmesurado das respectivas elites. O futuro parecia – mas não era – próspero! O 37 tem o seu quê de cabalístico, tudo tende a ruir ao fim desse prazo.

Aqui na Madeira, vivemos uma fotocópia, em versão único partido com ajudas. No seu verbo fácil, o “Chefe” inimputável dizia: “deixem o dinheiro comigo”. Mentiroso! Adecos e Copeianos ainda tinham o petróleo, este nem isso tinha, era só garganta e chantagem, como ouvimos a Francisco Balsemão num dos episódios da novela: LAVAGEM A SECO, em exibição às 5ªs feiras na RTP-M.

A dupla Hugo Chávez/Maduro manda há 18 anos, tantos quantos decorreram após o fim da riqueza. Por cá passaram apenas 5 e, há duas grandes diferenças a registar. Os madeirenses têm o direito/dever de estarem, religiosamente, atentos a elas para não correrem o risco de voltar a eleger um qualquer Chávez, por enquanto escondido, mas pronto a sair da sombra se sentir que está seguro em votos.

No início dos anos 90, o Juiz Ernesto Cunha do Tribunal de Contas, fazendo fé na máquina de propaganda do partido do poder, onde pontificava o poderoso líder parlamentar – Jaime Ramos –, tivemos sermão e missa cantada contra a intromissão do manga-de-alpaca do TdC que queria vasculhar as contas dos probos eleitos para ALM. Antecipando o Trump, que vê as suas prepotências legislativas travadas pelos Tribunais, por cá o TdC sempre foi apontado como um entrave ao progresso. Surgiram as viagens fantasmas e com elas a primeira lei branqueadora de uma infracção cometida por eleitos. Iniciava-se o jogo do gato e do rato, entre o GR e o TdC.  

Nas primeiras palavras que pronunciou, após a aceitação do programa de resgate, o Sr. Dr. Alberto João, grosso modo, disse: "Veremos, daqui a quatro anos, entre a RAM e o continente, quem melhor satisfez os seus compromissos". S. Exa. falou apoiado nos votos dos madeirenses. Porém, a viciação da vontade eleitoral, foi coisa frequente nele. Vou procurar, com um exemplo, explicar em que consiste viciar a vontade eleitoral. Félix Patassé foi Pres. da Rep. Centro-Africana de 1993 a 2003. Prometeu uma fábrica de notas em cada aldeia. Foi eleito. Mais tarde, recandidatou-se e nomeou Jesus Cristo, director de campanha. Usar a Igreja de Cristo para fins eleitorais foi recorrente, a fábrica de notas é: "deixem o dinheiro comigo".

Saído de cena há dois anos, após a mais que previsível borrasca acontecida em 2012, ficaram a marinar os erros, com eventuais crimes, na gestão financeira dos 37 anos. Além do Cuba Livre, ainda não arquivado graças à persistência de alguns madeirenses, temos, dispersos pela comunicação social, vários casos que, como cidadãos, nos devem preocupar. Desde logo o “brilhantismo” dos inquéritos parlamentares, com particular incidência para as conclusões sobre a Marina do Lugar de Baixo. Lidos os resultados, ficamos entre o sorriso de escárnio e a irritação, por sentirmos que nos querem tomar por tolos. Um certo conceito jurídico-administrativo – contrato programa – formalizou despesas públicas pouco transparentes. Temos essa situação num litígio entre o CSM e AFA, por causa de obras a mais, feitas no Campo de Stº António, ao que parece autorizadas verbalmente pelo então Pres. do GR, e o Relatório nº 15/2016-FC/SRMTC de auditoria de fiscalização concomitante à concessão de exploração á Escola Profissional de Hotelaria e Turismo da Madeira. Na alínea d) das determinações finais pode ler-se: “Determinar que as Secretarias Regionais da Economia, Turismo e Cultura e das Finanças e da Administração Pública, no prazo de seis meses, informem o Tribunal de Contas sobre as diligências por si efetuadas para acolhimento às recomendações constantes do relatório agora aprovado, mediante o envio de documentos comprovativos desses factos”. O prazo expirou dia 16 p.p. Há ruído no ar com audiências na ALM. Algo parece ter mudado. Ainda no segredo das comissões à porta fechada na ALM, a Sr.ª Sec. do Turismo admite ter havido erros. Não estávamos habituados a isto!

A irresponsabilidade, para não dizer inimputabilidade, governativa, da dupla Adecos e Copeianos em Venezuela, aqui, felizmente, deixou duas frentes de combate. Uma frente que lhe foi imposta, a dos Tribunais. Outra a da propaganda em que são exímios. É livro, é a novela semanal – LAVAGEM A SECO –, é 5 para meia-noite, romance histórico tudo serve para reabilitação.   

Escolhem os eleitores. Nunca ninguém disse que traria desemprego e noites ao relento, mas trouxe. Vão deixar-se encantar pelo produto lavado, encaixando na perfeição na moda do Trumpismo? Não se queixem depois.

terça-feira, 25 de abril de 2017

DEPOIS DE MIM, O DILÚVIO


Esta é uma frase atribuída a Luís XV, o Bem Amado, Rei de França. Sua Alteza sucedeu a Luís XIV, o Rei Sol, seu bisavô. Com a vetusta idade de 12 anos foi coroado em Reims.

Adolescente a governar não dá bom resultado. Uma de duas pode acontecer. São irresponsáveis, não assumem os seus actos; os adultos manipulam-nos. Na menoridade, Sua Alteza contou com a dedicação de várias pessoas. Durante oito anos o Duque de Orleães assumiu a condução dos negócios do Estado, e ao atear fogo nas relações com o Parlamento, pré-anunciava a Revolução. Acrescia a isto a adopção de leis inspiradas no pensamento do Escocês John Law, que levariam ao colapso económico da França. Esta bomba, igual a muitas outras que a História, mais tarde, registaria, tinha dispositivo retardador. Explodiu já com Sua Alteza no exercício pleno dos seus poderes, tendo levado à demissão do Duque de Bourbon.

Entre 1726 e 1743, os negócios de Estado estiveram entregues ao Cardeal Fleury. Foi o período de ouro do reinado de Luís XV, mas as guerras prosseguiam entre as famílias aristocráticas Europeias, a que se juntavam as divisões Religiosas. O reinado de Luís XV não pode ser separado da figura de Madame Pompadour. A pujança da Cultura Francesa daquela época ficou a dever-lhe muito. Amiga e confidente do Rei, nascida na burguesia endinheirada, conquistou inimizades na aristocracia. Durante o reinado de Luís XV as fronteiras Francesas nunca foram violadas, mas o monarca coleccionou várias derrotas externas que endividaram a França. Entristecido pelas derrotas, a que se juntavam as dificuldades internas nas disputas com o Parlamento, el-Rei, ou a sua amiga Madame Pompadour, terá proferido a célebre frase: “Depois de mim, o dilúvio”. À época associou-se-lhe a lenda dos quatro gatos. Um deles, magro e faminto, representava o povo – hoje, quando os Súbditos de outrora já são Cidadãos, um candidato a rei absolutista, chamaria de “patas rapadas” – vítima de todas as arbitrariedades. Um gato gordo, gerado no descalabro das leis inspiradas em John Law, simbolizava os financistas, onde se encontrava a família da Madame Pompadour que, algumas vezes, ocorreu às aflições das finanças públicas francesas. Um outro gato, possuindo apenas um olho, era o Governo. No topo tínhamos um gato cego que era el-Rei. Engalfinharam-se os quatros gatos, e o dilúvio aconteceu mesmo. Uma valente vassourada na aristocracia Europeia, protagonizada pela Rev. Francesa, mudou o Mundo.

Luís XV acreditava no poder de matriz aristocrática. Nunca lhe passaria pela cabeça, apesar das intrigas da corte, ainda por cima potenciadas pelas relações entre “primos” e “primas” por essa Europa fora, desacreditar publicamente os seus. Manter-se-ia fiel à imagem emanada da estátua equestre, comemorativa da vitória na Guerra da Sucessão Austríaca, mantendo os interesses de grupo. As disputas com o Parlamento eram as dores de parto daquilo que aí vinha, e que determinaria a mudança dos Súbditos em Cidadãos.

Duzentos e poucos anos, muitos milhões de mortos depois, estamos novamente numa encruzilhada. Pairam, sobre todos nós, umas criaturas com tanto de estranho como de sinistro, umas, dando a cara, outras, escondidas, mas todas elas procurando perverter os ganhos que a Humanidade conquistou neste dois sécs.

Os actuais candidatos a reis absolutistas, com as suas palavrinhas mansas de assassinos da voz meiga, em livros, TV, Jornais e redes sociais, procuram branquear a imagem de imbecilidade que carregam. O exercício do poder durante decénios acabou em fome e desemprego? Tudo isso, julgam os candidatos a reis absolutos, se ultrapassa com doses maciças de propaganda. Tem a palavra o Povo, lá irá escolher entre ser Cidadão ou Súbdito.  

segunda-feira, 17 de abril de 2017

INDISCIPLINA CÍVICA


Durante largo tempo, a comunicação social escalpelizou a cadente questão da mudança de nome do aeroporto de Santa Catarina para CR7. Passado o ruído, rapidamente a atenção das pessoas foi desviada para outros factos.

Desta vez, o assunto é bem mais sério. A Comunicação Social deu-nos conta de actos de indisciplina cívica que, pondo em causa a segurança de pessoas e bens, a todos preocupa. Temos por adquirido que cabe ao Estado o uso da força, nos limites da lei, para nos garantir que nada de mal nos acontece. É essa disciplina cívica que leva o Estado a gastar dinheiro nas viaturas da PSP com a inscrição Escola Segura.

O mediático futebol, de repente, acordou para a violência que, grassando desde há muito, sempre se ignorara. Juntou-se-lhe o “clássico” das Férias de Páscoa em Espanha. Nenhum destes factos que agora extravasaram para a comunicação social é novidade. Enquanto eles se limitaram a aparecer em pequenas notícias dispersas não demos conta de nada. Quem não se recorda de ler/ver notícias de espectáculos futebolísticos onde ocorreram mortes? Quem nunca viu enquadramentos policiais de frequentadores de espectáculos futebolísticos como se de “guerreiros” se tratassem? Quem não se recorda de, em Páscoas anteriores, ter lido notícias de desacatos feitos por estudantes?

Dar o nome do Cristiano Ronaldo ao aeroporto, não interfere directamente connosco. Pode bem a questão ser tratada sem reflectirmos sobre ela. Diferente, muito diferente, é não reflectirmos sobre a formação dos nossos jovens, ou admitirmos que se coloquem em risco Pessoas e Bens. Nestes casos urge ir ao cerne da questão. Cabe, à Comunicação Social, para mais numa sociedade com apenas 43 anos de Liberdade de Expressão, uma função didáctica para que os cidadãos distingam o essencial do acessório.

Estaremos nós a garantir uma boa formação aos nossos jovens? Não lemos, não vimos, nem ouvimos notícias que, há anos, nos dão conta de bulling nas escolas, de papás indignados que, impunemente, ousam esbofetear Profs. por cometerem o “crime” de não deixarem os educandos usarem o telemóvel nas aulas? Quantas notícias vimos/lemos de professores com problemas do foro psíquico pelo desrespeito permanente de que eram vítimas nas escolas? A comunicação social, muita dela, deu estas notícias, outra (mais do que seria desejável) escondeu-as. Acho que nenhuma comunicação social – comentadores incluídos – fez pensar as pessoas sobre as consequências desta demissão de quem mandava. Gerámos e gerimos, em 43 anos, um sistema educativo, onde filhos e netos ficaram adolescentes – não assumem a responsabilidade dos seus actos – a vida inteira. Alguém, os eleitos por nós na companhia dos nomeados para coadjuvá-los na Administração Pública, deveria estar atento a este Interesse Colectivo que é formar Cidadãos responsáveis.

O futebol, nos nossos dias, beneficia de facilidades financeiras, impensáveis no passado. Vive em mancebia com a especulação financeira gerando negócios que, em última instância, podemos acabar pagando. Basta que as avultadas dívidas de muitos clubes à banca, obtidas na promiscuidade entre os poderes político e financeiro, se transformem em imparidades para sermos chamados a pagar. Os clubes fazem vida de ricos, e criam poderosas centrais de propaganda que, alimentando o mito do “amor à camisola” junto dos fervorosos adeptos, os levam a confundir desporto com espectáculo futebolístico. Foi notícia, não desmentida, que o responsável pela propaganda de um dos clubes do nosso futebol aufere um salário de € 5.000 mês. O felizardo, se calhar declara, para o IRS, o salário mínimo. Quem manda aceita e promove estas aberrações.


Não parece, eu sei, mas a sociedade da riqueza virtual em que vivemos está perigosa. Os jovens, a quem tudo facilitámos, tornaram-se irresponsáveis e, mais grave, ficaram sem futuro graças a pusilanimidade vigente. A sociedade do futuro estará ainda mais dividida entre aqueles que serão remunerados a partir da riqueza financeira – começando no Goldman Sachs, acabando no hiper-bem-pago director de comunicação do clube de futebol – com os profissionais das várias actividades, possuidores de formação superior, pagos pelo salário mínimo ou desempregados dependurados na magra reforma dos pais.  

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A FORÇA DE ACREDITAR


Acreditar é um verbo determinante para o Homem. É por acreditar que a vontade Humana se forma e leva as pessoas à acção. Porém, acreditar não implica eliminar um outro verbo: pensar. Eles convivem, e não são imunes à propaganda dos poderosos. Habilmente, a propaganda pode fazer-nos acreditar em mentiras que, sacrifiquem Valores Humanos. A Liberdade é um deles.

Portugal gostaria de esquecer o ano de 1961. A invasão do Estado da Índia e o início da Guerra Colonial em África, marcaram-no para sempre no nosso imaginário colectivo. O País viu-se obrigado a retirar efectivos da Índia para Angola e, o reconhecimento das virtudes militares do 2º Ten. Oliveira e Carmo, morto em combate na Índia, não fizeram esquecer às FA’s e à Nação o vexame do regresso dos prisioneiros. Coube-lhes enquadrar mancebos que, no cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, formatados desde crianças, a “dar a vida pela Pátria”, acreditavam nisso sem pestanejar. Fiéis aos seus Princípios Éticos, continuaram obedecendo ao Poder Político, até 1974. Treze anos de vida profissional eticamente irrepreensível não podiam levar a que a Instituição Militar assumisse erros da condução política.

A 25 de Abril de 1974, os militares proporcionaram ao Povo Português o reencontro com a História. Desde logo, manifestaram vontade de nos proporcionar um Estado de Direito que respeitasse a Pessoa Humana. Os Portugueses acreditaram. Os militares, apoiados na força das armas, em nome da Pátria, mudaram o Poder Político. O uso da força não é despiciendo, e as várias forças políticas surgidas, tentaram garantir esse apoio. Foi o tempo do PREC, de má memória.

Fiéis a si próprios, cumprindo a promessa de que regressavam aos quartéis, tutelaram o Poder Político até 1982. Extinto o Conselho da Revolução, tínhamos pela frente mar estanhado que nos levaria ao Estado de Direito respeitador da Lei e da Pessoa Humana. Saíam de cena os Militares.

A democracia, a partir daí, ficou entregue aos Partidos Políticos. A esquerda, com uma representação minoritária na Assembleia da República, nunca viu leis da sua autoria aprovadas e, aceites por nenhum executivo. Os dois poderes – Legislativo e Executivo – durante 33 anos, foram da responsabilidade de CDS, PPD/PSD e PS.

O Poder que tínhamos, em 1974, sucumbiu por erros políticos próprios. A falta de Liberdade permitiu escondê-los dos cidadãos. Hoje, vivemos em Liberdade e não augura nada de bom, aquilo que constatamos como praxis de um Estado de Direito. O Estado definha, e ninguém fala por ele. Há violência no futebol? Não há problema. Monta-se uma operação de propaganda, juntando Homens Públicos eleitos para funções de Estado com dirigentes de futebol, onde se discutem os efeitos – a polícia bateu, ou não, com força a mais – escondendo-se as causas. Pois nas causas, há acordo entre eleitos e dirigentes desportivos. Ambos acham que, em nome do clube, se permite arruaça. Prende-se um cidadão que atemorizou populações. Monta-se, à hora do telejornal, um evento propagandístico, onde uma Srª. advogada nos faz chorar, perante os métodos policiais violentos usados, contra aquele cidadão. Os seus honorários fizeram-na esquecer o susto das populações, pois ganhar dinheiro, está muito acima da sua condição de cidadã. Ninguém a confronta com o erro!

Assusta constatar aquilo a que chegámos. Temos leis que permitem castigar os “pilha galinhas”, mas não outros eventuais – escrevo assim pois os juízes também não sabem se eles são – criminosos. O Estado de Direito caminha para a implosão. Ficará apenas com dois Poderes o Legislativo e o Executivo, por total descrédito do Judicial. Os princípios éticos que, acredito eu e o País inteiro, são incutidos aos jovens cuja vida profissional se fará na área do Direito, seja exercendo advocacia no Tribunal, interpretando e aplicando a Lei nos Tribunais ou Legislando na Assembleia, volatilizaram-se.

Uma palavra de apreço aos Militares de Abril e outra aos muitos Homens e Mulheres que no sistema Judicial dão a cara por nós, sofrendo enxovalhos sistemáticos, vindos da pusilanimidade instalada.


Nós, cidadãos comuns, não nos podemos resignar. Não somos os culpados disto. E estamos a tempo de, como fizemos em 1974 com os militares, apoiarmos os desamparados e maltratados Tribunais. Os erros dos Tribunais são escrutinados, mas a propaganda dos poderosos não permite que se faça o mesmo aos donos do dinheiro.